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2020: Era impossível prever um cenário de escolas fechadas e aulas remotas?

Escolas fechando de forma abrupta, aumento de desigualdades, instabilidades, prescrição de ecossistemas de aprendizagem e comunicação emergenciais, adoção de realidades pouco testadas, exaustão, medo e, também, intrepidez. Poderia ser mais uma narrativa sobre 2020, aulas remotas e os reflexos de uma pandemia devastadora, mas na verdade é uma realidade bem conhecida e recorrente na  história da educação brasileira.   

Mais de cinquenta anos após a publicação da Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire segue atual ao advertir sobre a necessidade de estabelecermos relações entre a realidade e a experiência existencial de educandos – e educadores. Talvez, a insistência em tratar realidades da educação como fatos isolados, casos fortuitos, surpresas e “hypes (modismos) do ano” seja um ponto a ser levantado antes de declararmos o ano de 2020 como o ano que ninguém nunca previu.  

Será que alguns olhares para trás poderiam ter nos ajudado a prevenir e tratar as mais recentes dores na Educação neste período de aulas remotas? A provocação aqui não é apenas pressupor que não aprendemos com a história, mas também questionar as histórias que estamos escolhendo contar e documentar como prioridades. Nos últimos 15 meses, quantas vezes você ouviu o clássico “estamos vivendo tempos inéditos na educação”?

“Nos últimos 15 meses, quantas vezes você ouviu o clássico ‘estamos vivendo tempos inéditos na educação’?” 

Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) sobre o número de estabelecimentos de ensino na Educação Básica, mais de 80 mil escolas rurais foram fechadas entre 1997 e 2020. Porém, desafiando a conjuntura, movimentos sociais, quilombolas, ribeirinhos e de povos indígenas mantiveram e mantêm viva a educação em espaços de ensino e aprendizagem que equilibram saberes e especificidades. 

Mas e se a gente olhar para um passado bem mais recente? Entre os anos de 2015 e 2016, mais de mil escolas no Brasil fecharam suas portas, temporariamente, para as “aulas tradicionais”. Em busca de um ensino público de qualidade e uma educação mais inclusiva, estudantes estiveram na linha de frente contra algumas  mudanças promovidas na área de educação, dentre elas a PEC 241, a reforma do Ensino Médio. As ocupações estudantis trouxeram uma demanda por uma participação mais ampla  do próprio processo pedagógico, e por isso os estudantes optaram por fechar as escolas, mas não por parar a educação. Tendo acompanhado e pesquisado sobre as ocupações, posso afirmar, sem medo, que nesses movimentos estudantis surgiram novas maneiras de articular, aproximar, relacionar, mobilizar e gerir comunidades de aprendizagem, através do uso multidimensional das tecnologias.  

Em comum, entre o fechamento recorrente de escolas públicas em áreas rurais e de risco, a Primavera Estudantil e o ano de 2020 são questionamentos sobre três grandes suposições na priorização da educação: Qual é o papel das escolas? Como funcionam as dinâmicas da autonomia estudantil e comunitária na gestão do conhecimento coletivo, e qual é o real papel das tecnologias de informação na educação? Questões essas que deixarei em suspenso, para que você possa responder a partir dos contextos que você conhece.

“A presença não é sinônimo de “câmeras  e microfones abertos”, de checklists e cliques” 

Priorizar a educação, em sua essência, é priorizar a humanização, a pluralidade, o pertencimento, a autenticidade e as relações e recursos locais. O processo de aprendizagem só vigora se sustentado pelo próprio mundo do aluno. 

Muito além de um cenário nada inédito, de escolas fechadas e aulas remotas, continuamos a testemunhar ausências importantes na construção de uma educação planetária, justa e equitativa. Deixamos de celebrar presenças importantes e que fizeram com que, mais uma vez, a educação não parasse. Mas que presenças são essas? 

A presença não é sinônimo de “câmeras  e microfones abertos”, de checklists e cliques.  Todos nós já experimentamos o poder da presença: aqueles momentos em que estamos profundamente imersos em fruir as existências que nos rodeiam e o que acontece lá é real e profundo.  

As presenças criadas, por exemplo, pela criação da Rádio de Bitita, Uma rádio, em formato multimidiático, produzida pela comunidade escolar da EMEF Infante Dom Henrique/Espaço de BITITA, em São Paulo (SP).  A presença de Jota Marques, que  faz parte das juventudes comprometidas com a educação, professor, conselheiro tutelar, morador da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro (RJ), e que está nesse momento construindo uma biblioteca, e espaço de aprendizagem e trocas, em sua comunidade. A presença de Poty Poran na Escola Estadual Indígena Krukutu, quando promove a valorização das identidades e tradições de seus alunos. A presença de  Gislaine Alvez Kamer Bento, da  Escola Estadual Professor Cid Boucault, em Mogi das Cruzes (SP), possibilitou, durante a pandemia, acesso ao aprendizado para seus alunos com deficiência auditiva. Enfim, a presença dos milhões de educadores e líderes educacionais que todos os dias buscam estar presentes nas vidas de seus alunos.

“A discussão mais importante, neste momento, não é sobre ferramentas, acessórios e receitas prontas” 

A discussão mais importante, neste momento, não é sobre ferramentas, acessórios e receitas prontas. Afinal, já percebemos que de uma hora para outra elas expiram, desaparecem, excluem e passam de gratuitas a pagas. A discussão mais importante que precisamos ter é sobre como combater as ausências e divulgar as presenças que desafiam o agora. É sobre recalibragem contínua em contextos que nunca foram e nunca serão “apenas normais”.  A discussão é sobre voz e vez, sobre quem não está na mesa decisora. A discussão é sobre não calar,  reconhecer que pouco sabemos e que aprender é para sempre. 

O que precisamos internalizar é  que 2020 não foi um ano inédito na educação, mas que 2021 poderá ser, se realmente pararmos para aprender, ouvir, incluir, reconhecer, mobilizar, colaborar e transformar. A lição que a gente tira de todos esses meses e anos na educação – e na vida – é que educação e seus futuros, se faz com gente, e como já dizia o poeta Emicida,  “tudo que nóis tem, é nóis”.  

* Conteúdo produzido e editado pelo Porvir

GISELLE SANTOS  

Graduada em Marketing pela Universidade Estácio de Sá, especialista em Gestão da Inovação Corporativa e membro da primeira turma de Estudos de Futuro da Casa Firjan. Trabalhou 25 anos na área de ensino de Inglês como Língua Estrangeira atuando como professora, coordenadora e designer de cursos. Até fevereiro de 2020, atuou como Head de Inovação Acadêmica da Spot Educação. Hoje em dia, atua em sua sua startup, a human:ia, iniciativa fundamentada na intenção de criar, através da Educação, acessos descomplicados, e mais inclusivos, para o entendimento e uso combinado das inteligências humanas e artificiais. Expert de produtos Google for Education, Google Innovator e membro do Painel de Especialistas em Inovação do Horizon Report K12 entre os anos de 2014 e 2017, Giselle é uma entusiasta das práticas inovadoras e tecnologias educacionais, curiosa por natureza e investigadora de temas como Afrofuturismo, tecnologias disruptivas e  aplicação de inteligência artificial na Educação. Diariamente compartilha dicas de inovação, educação e inteligências híbridas através do seu perfil @feedtheteacher, onde tem a oportunidade de se conectar digitalmente a mais de 20.000 educadores. Em suas horas vagas, liberta brinquedos, dança com seus doguinhos e desafia o status-quo.

Quem disse que precisa de computador para programar? Conheça os benefícios das atividades desplugadas

Apesar dos softwares, motores, leds e ferramentas digitais ampliarem as possibilidades de trabalhos, nem só de tecnologia vive a aprendizagem criativa. As atividades desplugadas também são fundamentais para os estudantes colocarem a mão na massa, entenderem conceitos de programação, lógica e exercitarem a resolução de problemas. Mas, afinal, o que é uma atividade desplugada? 

“Nós chamamos de atividades desplugadas aquelas que não dependem de equipamentos eletrônicos, tais como celulares, tablets ou computadores. São atividades que podem ser desenvolvidas com materiais físicos, normalmente baratos ou reutilizados, como papéis, papelão, canetas, lápis coloridos, caixas, palitos, cola, régua, garrafas pet, tampinhas, tecidos, linhas, ou mesmo ingredientes culinários, entre outros”, define o educador Alberto Cunha, gerente da Assessoria de Tecnologias Educacionais na ‎Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (MG).

“Acredito que trabalhar atividades desplugadas com crianças e adolescentes traz vários benefícios. Elas exigem que se coloque as mãos na massa, trabalhando a organização do pensamento lógico e reflexivo” 

Alberto foi fellow do Desafio Brasileiro de Aprendizagem Criativa da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa com o projeto “Aprender fazendo: programação e robótica” e explica que são vários os tipos de atividades que podem ser desenvolvidas de forma desplugada. No entanto, ele enfatiza que é muito importante pensar em quais e como elas serão realizadas, seus propósitos e adequação às idades. “Acredito que trabalhar atividades desplugadas com crianças e adolescentes traz vários benefícios. Elas exigem que se coloque as mãos na massa, trabalhando a organização do pensamento lógico e reflexivo, além do desenvolvimento de várias habilidades pouco exercitadas, desafiando todos os envolvidos. Elas podem promover diversos aprendizados de forma lúdica e prazerosa para todos os envolvidos”, diz. 

Uma linguagem para todos 

É muito comum associarmos o aprendizado de programação nas escolas como um caminho para que os jovens se tornem programadores e cientistas da computação em sua vida adulta. Até pode ser, mas não é somente para isso. “Escrever códigos não é só para os magos dos computadores”, defende Mitchel Resnick do laboratório de Mídia do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) — “é para todos”. Na palestra “Vamos ensinar as crianças a escrever códigos”, Resnick apresenta os benefícios de ensinar as crianças a escrever códigos, para que elas possam fazer mais do que simplesmente “ler” as novas tecnologias, mas também criá-las. “Nem todos os alunos se tornam escritores, mas ensinamos todos a escrever porque é uma forma de se comunicar com os outros, de organizar seus pensamentos e expressar suas ideias. Para o autor, o mesmo acontece quando alunos aprendem a codificar. Eles aprendem a organizar, expressar e compartilhar ideias de novas maneiras, em um novo meio”, afirma a educadora Daniela Lyra Cardoso, especialista em design instrucional e tecnologia da educação.

“Nem todos os alunos se tornam escritores, mas ensinamos todos a escrever porque é uma forma de se comunicar com os outros, de organizar seus pensamentos e expressar suas ideias” 

“Claro que queremos que os alunos se tornem capazes de se inserir no mercado de trabalho, mas também acreditamos que os estudantes devem ter a oportunidade de aprender a manipular mídias para expressar ideias. Atividades desplugadas representam uma ótima porta de entrada para ensinar ciência da computação de forma simples, que não requer muita preparação e que encanta os alunos”, complementa. 

Ela cita ainda mais benefícios das atividades desplugadas: apoiam o desenvolvimento da criatividade ao estimular os estudantes a imaginar, criar, brincar, compartilhar e refletir. “Durante atividades desplugadas, professores podem ter alguns objetivos específicos, tais como entender como zeros e uns podem ser usados ​​para representar informações como imagens digitais; compreender conceitos fundamentais de lógica e aplicá-los para criar seus projetos; ou classificar informações rapidamente em uma ordem útil”, exemplifica.   

Em tempos de pandemia, em que as crianças brasileiras estão a maior parte do tempo longe das atividades presenciais com a escola, as atividades desplugadas trazem a proposta de serem desenvolvidas em casa, com baixo custo e com envolvimento dos familiares. “Elas exigem algum tipo de pesquisa e ajudam a despertar a curiosidade, mas demandam também concentração, diálogo, colaboração, resiliência, aprendizado com os erros, habilidades manuais e, principalmente, a capacidade de se resolver problemas”, atenta o educador Alberto Cunha. 

Esta última, para ele, é talvez a mais importante competência que precisamos desenvolver na educação dos dias atuais: “Ao trabalhar com atividades desplugadas, crianças e jovens deparam-se com o novo o tempo todo. A construção de objetos concretos para se brincar, jogar e contar histórias desafia os envolvidos a materializar ideias que estão em níveis abstratos. E como já nos disse Seymour Papert, a aprendizagem vai ser mais significativa quando ela extrapolar o nível apenas do abstrato. Os feedbacks e as avaliações chegam tanto do(s) construtor(es) quanto dos que estão de fora. As críticas podem promover ajustes tanto no desenvolvimento do processo de construção quanto no produto, o que eleva o nível do desenvolvimento das ideias, promovendo a aprendizagem a um patamar mais significativo para todos”, exemplifica o professor, que divide suas experiências no canal do Youtube Aprendiz 21.  

Acesso e tecnologia 

As atividades desplugadas também podem ser uma forma de compreender como funcionam os computadores, que estão por toda parte. Temos hoje máquinas potentes nos nossos bolsos, mas quantos de nós entendemos como elas funcionam ou como pensam? É a ciência da computação que explora essas questões. “Cada aluno pode se beneficiar de uma introdução à ciência que é, possivelmente, uma das mais centrais em suas vidas no cenário atual – a ciência da computação”, diz Daniela. 

Dentro deste espectro, Carla Arena, formadora de professores que desenvolve metodologias para treinamento em letramento digital, elenca outro aspecto que considera essencial na educação deste século: acessibilidade. “Quando pensamos em atividades desplugadas, estamos falando do desenvolvimento de uma mentalidade e atitude para desvendarmos os “segredos da computação”, diz.  

“Quando falamos de acesso, o mais importante para nossos jovens é desenvolver essa mentalidade e atitude de questionadores, que testem, falhem, compreendam e resolvam os problemas a que são submetidos em seus contextos” 

Uma vez motivado e desenvolvido o letramento computacional, estamos dando a oportunidade de acesso a uma nova forma de pensar e de resolver problemas. “Daí, quando eles tiverem mais acesso a recursos, já estarão prontos para avançarem no desenvolvimento das competências e habilidades na área da computação. Quando falamos de acesso, o mais importante para nossos jovens é desenvolver essa mentalidade e atitude de questionadores, que testem, falhem, compreendam e resolvam os problemas a que são submetidos em seus contextos”, defende. 

Mão na massa  

Confira algumas dicas de atividades desplugadas que podem ser feitas no ensino híbrido ou remoto:  

Para professores de língua portuguesa ou estrangeira, uma conexão interessante seria usar o livro de ilustração ‘Girls Who Code’ (de Reshma Saujani , Editora Texto, 2018), uma história divertida que apresenta às crianças os conceitos de programação de computadores enquanto se divertem fazendo um castelo de areia. Após a leitura, os alunos podem usar a estratégia ilustrada no livro, de dividir um grande problema (exemplo: “precisamos de um castelo de areia”) em etapas menores, e criar o seu próprio algoritmo para uma atividade que podem fazer em casa –  cozinhar, modelar, empilhar, ou até mesmo brincar.  Mesmo online, os alunos podem aprender a programar enquanto criam uma receita ou montam um bracelete – No Portal CS Unplugged é possível consultar algumas práticas super inspiradoras de aulas montadas já pensando no desafio do ensino à distância.  

Daniela Lira Cardoso, educadora especialista em design instrucional e tecnologia da educação 

Existem várias atividades que podem ser feitas à distância, em casa, com materiais simples e que são desafiadores, divertidos e com potencial de muita aprendizagem. A construção de um tabuleiro com 64 casas, como no jogo de damas ou xadrez (8×8) é um desses exemplos. Ali se desenvolve uma série de trilhas, com objetivos bem definidos. Ali as crianças vão programar, usando cartas com setas, explorando a trajetória da personagem ‘A’ para chegar ao ponto ‘B’ no menor percurso possível. Um exemplo claro dessa atividade está no meu canal Aprendiz 21 – Educação Fora da Caixa e também algumas outras, construindo jogos e desenhos, com materiais ultra simples, como até mesmo um lápis e uma folha quadriculada, para se desenhar programando ou programar desenhando. 

Aqui também estão outros exemplos de atividades: Come Come – Aprender Brincando!Desenhar Programando e Programar Desenhando – Parte 2Desenhar Programando e Programar Desenhando! É possível?JANEIRO DESPLUGADO – PARTE 1.   

Alberto Cunha, educador e gerente da Assessoria de Tecnologias Educacionais na ‎Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (MG). 

Em contextos de ensino remoto, as atividades desplugadas podem ser encorajadas com um roteiro, uma trilha de aprendizagem enviada pelo professor, em que o aluno tem que desenvolver e fazer o registro sobre como realizou e os resultados que foram alcançados. Nesta fase, as crianças e jovens podem recorrer ao que possuem localmente. Por exemplo: o professor pode fazer um trabalho de pixel art em que os meninos fazem um desenho específico, com determinadas cores, com determinados parâmetros, e eles trabalham com as células e localização em uma folha quadriculada. Ou podem  fazer um personagem se mexer no papel, utilizando a estrutura de programação de plataformas como o Scratch, por exemplo. As possibilidades são inúmeras. O importante é fazer com que o aluno experimente, explore, construa, desconstrua, programe, invente, e chegue às suas conclusões com seus produtos finais, aprenda e evolua para o próximo desafio e projeto. É assim que as vidas dessas crianças e jovens podem ser impactadas positivamente independente do contexto em que se encontram. 

Carla Arena, educadora, cofundadora do Amplifica 

Autora: Mayara Penina

* Conteúdo produzido e editado pelo Porvir.  

Estudantes precisam de motivação para desenvolver seu potencial criativo na escola

Apesar do consenso sobre o papel e a relevância da criatividade para o futuro da educação, os fundamentos neurobiológicos da criatividade são ainda mal compreendidos. Se antigamente a criatividade era vista como uma habilidade destinada apenas a artistas e gênios, hoje sabemos que o ato de criar é um fenômeno resultante de um conjunto de funções e comandos do nosso cérebro, logo ela pode ser treinada e aperfeiçoada.  

Embora seja complexa, a investigação neurocientífica da criatividade é acessível às ferramentas da neurociência, vinculando o comportamento à atividade registrada nas redes cerebrais. O principal desafio é não cair nas simplificações fáceis que invariavelmente surgem quando se discute a criatividade.  

Por exemplo, é comum responsabilizar a escola pelo declínio da criatividade. De fato, essa afirmação é corroborada por estudos que apontam um decréscimo da criatividade nas crianças com os anos de permanência na escola. No entanto, não podemos desconsiderar as modificações cerebrais ontogenéticas e seus efeitos sobre as capacidades dos indivíduos, dentre elas a criativa.  

“O principal desafio é não cair nas simplificações fáceis que invariavelmente surgem quando se discute a criatividade” 

Como afirma Eugenio (2019), à luz das neurociências, podemos dizer que a escola tradicional não mata a criatividade, contudo não se importa tanto para salvá-la de seu declínio natural. No livro How Creativity Works, o americano Johah Leherer observou que 95% dos alunos no segundo ano (o que corresponde no Brasil aos alunos iniciais do ensino fundamental) são criativos – eles desenham, pintam e criam diversas histórias. No entanto, no quinto ano este percentual cai para 50%. No ensino médio, 10% apenas são considerados criativos. Então, seriam as escolas as responsáveis pelo declínio da criatividade desses alunos?  

Não há dúvidas que existem diversas razões, e a escola está longe de ser a única vilã da história. Vejamos as razões neurobiológicas: é sabido, por exemplo, que o cérebro é um órgão plástico e se modifica ao longo do tempo de vida do indivíduo. Uma área cerebral importante que devemos nos atentar para entender o fenômeno observado por Leherer é o córtex pré-frontal, a área mais anterior do cérebro. Essa área é responsável pelas chamadas funções executivas e abriga circuitos neuronais responsáveis por habilidades de autocontrole do indivíduo. Acontece que essa área se desenvolve somente mais tarde no indivíduo, completando seu estágio de maturação apenas na segunda década da vida. Dessa forma, o córtex pré-frontal não exerce nenhuma ação de controle sobre os impulsos e ações da criança. Esses estudantes criam de forma tranquila e prazerosa, sem tantas preocupações com opiniões externas.  

No entanto, com o passar dos anos, as áreas de autocontrole se desenvolvem e iniciam o processo de inibição sobre os impulsos do indivíduo. As crianças começam a prestar mais atenção nas expectativas e críticas de seus pares, à medida em que aprendem também a ler com mais assertividade as expressões emocionais manifestadas pelos colegas e pelo professor. O medo do erro, do exagero, da incoerência e do improviso suprime paulatinamente o potencial criativo da criança.   

“O medo do erro, do exagero, da incoerência e do improviso suprime paulatinamente o potencial criativo da criança.” 

Na adolescência, há outro fator agravante que ajuda a explicar porque os alunos do ensino médio são considerados pouco criativos. Diferente do primeiro, esse motivo está mais relacionado à natureza química dos nossos cérebros. Por exemplo, sabemos que por volta dos 8-12 anos existe uma perda de receptores de dopamina. Essa substância é um neurotransmissor responsável, entre outros efeitos, por passar a sensação de prazer e de motivação às pessoas. Uma das consequências da diminuição desse número de receptores é o fato de o jovem estudante se entediar com grande facilidade. Logo, o dado de Leherer sobre o baixo potencial criativo dos alunos do ensino médio pode ser explicado também pelos fatores motivacionais. Isso quer dizer que os jovens não se envolvem em atividades criativas simplesmente porque estão desmotivados.  

Para chegar nos mesmos níveis de satisfação de antes, o adolescente busca atividades mais desafiadoras e que envolvem correr riscos. Pode parecer um problema para os dias atuais esses comportamentos, mas é importante considerar que nosso cérebro é um produto de milhões de anos. No passado, os sujeitos que não tinham coragem para sair debaixo da asa dos pais e se aventurar para caçar, buscar e conquistar recursos (caça, pesca, etc.), provavelmente foram extintos. E isso explica também porque o adolescente tolera menos uma aula monótona, focada na transmissão de informações, desconectada de seus interesses e de sua realidade.  

Essa desmotivação é muitas vezes confundida com preguiça, falta de iniciativa própria ou então falta de inteligência – mal sabe o professor que o interesse do aluno é outro para além das classes gramaticais, dos polinômios e da história do Brasil. Nessa época, os alunos querem ser desafiados, colocar em prova suas habilidades e se relacionar, especialmente com os outros. É dessa maneira que, ao longo do desenvolvimento das duas primeiras décadas de vida dos indivíduos, a escola e seus atores atuam como cúmplices da derrocada da criatividade, diante das mudanças neuroquímicas e do desenvolvimento de áreas de autocontrole – que desempenham papéis fundamentais na vida social, afetiva e intelectual do indivíduo adulto.  

O que a escola pode fazer?  

O calcanhar de Aquiles está justamente nessa cumplicidade exagerada com as regras que regem o desenvolvimento humano. Em relação à criatividade, sem contar os mecanismos de autocontrole, a escola precisa nadar contra a maré, criando experiências de aprendizagem que visam o prolongamento das capacidades criativas em seus estudantes. Portanto, desafiar o cérebro, surpreendê-lo e subverter a lógica linear a partir de um olhar e pensamento divergente sobre os problemas é o caminho mais seguro para transformar uma escola em um espaço criativo, segundo os estudos recentes das neurociências.  

Estudos com EEG (eletroencefalograma), por exemplo, mostraram maior atividade cerebral durante ações que exigem um pensamento mais divergente do que convergente (Jauk, Benedek, & Neubauer, 2012). O pensamento divergente valoriza a quantidade de ideias e as associações que elas podem ser feitas. Costuma-se trabalhar com atividades em que temos diferentes respostas para uma mesma pergunta. Por exemplo: O que podemos fazer para combater o desmatamento na Amazônia? Isso é bem diferente de perguntar ao aluno ‘qual é a capital da Argentina?’ ou, ainda, ‘qual é o nome do grupo de plantas mais primitivo?’.  

“Em relação à criatividade, sem contar os mecanismos de autocontrole, a escola precisa nadar contra a maré, criando experiências de aprendizagem que visam o prolongamento das capacidades criativas em seus estudantes” 

A maioria dos estudantes e professores têm vivenciado uma cultura escolar que prioriza esse modelo de atividades, que demanda uma resposta certa e imediata. Esse hábito é típico de um ensino convergente, que segue um modo de pensamento orientado para obter uma única resposta a uma situação – é um pensamento rigoroso e pouco criativo. O aluno adquire o hábito de ter ideias fixas, logo apresenta dificuldades para aceitar o que é dito de diferente, pois as ideias preconcebidas são consideradas as corretas. 

Ao fazer essa consideração, isso não significa de forma nenhuma que o pensamento convergente deve ser banido da escola. O pensamento convergente é fundamental para criar o que chamamos de repertório no indivíduo, e é a partir desse repertório que o aluno poderá desenvolver, de fato, a sua criatividade. O que estamos sugerindo aqui é que é importante a escola abrigar os dois tipos de pensamento no seu currículo. 

Abordagem convergente e divergente na prática  

Lloyd Barrow comparou uma aula de ciências com uma abordagem convergente e outra, digamos, mais divergente e criativa. A aula de ciências iniciava a partir de uma pergunta: como o número de cubos de gelos afeta a temperatura da água? Em uma aula tradicional, uma determinada quantidade de água teria sua temperatura aferida inicialmente. E, conforme novos cubos de gelo fossem adicionados, novos registros da temperatura seriam obtidos. Os alunos já saberiam que a temperatura iria diminuir com o passar do tempo. Cada aluno poderia fazer o experimento sozinho ou em duplas, preencheria uma tabela e a entregaria ao professor, que eventualmente atribuiria uma nota para a tarefa realizada. Quando os estudantes trabalhavam dessa forma, especialmente sozinhos ou em duplas, Barrow identificou que a competição prevalecia.  

O autor também notou que, na versão divergente, o professor trabalhou com grupos de três ou quatro estudantes e estimulou mais a colaboração entre eles. Nesse tipo de aula, o professor fez um planejamento com mais tempo para que os alunos perguntassem e refletissem sobre a questão proposta. Por exemplo, em uma sessão de brainstorming, ele provocava novas ideias e perguntas a partir da própria curiosidade dos estudantes. Em tempo, os alunos também sentiam cada vez mais necessidade de visualizar suas ideias, assim eles se organizavam para criar esquemas visuais. Os alunos desenhavam diferentes cubos de gelo (visualização) e levantavam questões para entender se a forma do cubo fazia diferença na mudança de temperatura da água. Dessa forma, outras variáveis que afetam a mudança da temperatura eram levadas em consideração: quantidade de água (50ml, 100ml, 150ml), temperatura inicial (10ºC, 15ºC, 20ºC), tempo de intervalo entre uma medida e outra (1, 2, 3 minutos), composição do vasilhame (plástico, vidro, metal), tipo de água (destilada, da torneira, gaseificada) e tamanho e forma do recipiente (cilindro, retangular, 150ml, 100ml, etc). 

As questões levantadas pelos estudantes podem ser divididas pelo professor entre os estudantes. Cada grupo pesquisa sobre um tópico específico, analisa informações e realiza pequenos testes (protótipos) para validar suas ideias. Em seguida, organiza uma síntese que é compartilhada e discutida com os colegas. Dessa forma, o professor privilegia mais a participação ativa do aluno, mais envolvimento e uma postura mais investigativa, reflexiva e colaborativa.  

Comparativo entre uma aula tradicional, que prioriza o pensamento convergente, e uma aula criativa, que enfatiza o pensamento divergente. Elaborado por Eugenio (2019).

Como já discutimos, a escola não é a única vilã responsável pela morte da criatividade, mas ele pode adotar práticas motivadoras que contribuem para o prolongamento das capacidades criativas em seus estudantes. Diante de tantas pesquisas e evidências, os educadores também precisam estar mais abertos a um planejamento de aula com momentos divergentes, e consequentemente mais criativos.  

Saiba mais sobre as referências e pesquisas citadas pelo autor aqui.  

* Conteúdo produzido e editado pelo Porvir

TIAGO EUGENIO
Cofundador e diretor executivo da Plataforma Educacional Neurons e da Escape Factory. Tem mestrado em Psicobiologia pela UFRN e formação em Game-Based Learning e gamification pela Quest To Learn, em Nova York, além de passagens pelo Colégio Bandeirantes, onde auxiliou a criar o primeiro currículo STEAM para o ensino médio.  É autor do livro  “Aula Em Jogo: descomplicando a gamificação para educadores” e do livro “Por dentro do jogo: como os games impactam o cérebro e as relações sociais” e diversos artigos, nos quais discute temas interdisciplinares como videogame, educação, criatividade, saúde e tecnologias digitais. É professor convidado de pós-graduações em diversas instituições, dentre elas USP, UNIFESP, IPOG, Santa Casa e Instituto Singularidades.