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Conheça a Aprendizagem Criativa e as tendências para a educação do século XXI

Paulo Freire e a criatividade libertadora

A obra de Paulo Freire é criativa e impulsionadora de criatividade na educação. Porém, dentre tantos vieses que a palavra criatividade pode comportar, do ponto de vista freiriano, ela precisa ter um objetivo de libertação. Como uma capacidade intrínseca ao ser humano, ela deve ser uma ferramenta para pensar de maneira inovadora e transformar o mundo para melhor.

A criatividade é um elemento sempre presente nos escritos de Paulo Freire, explica Paulo Roberto Padilha, diretor pedagógico do Instituto Paulo Freire. “Ela está lá desde o primeiro livro dele, sempre pensando no concreto da vida e da educação a partir das experiências reais, da cultura. Ele parte dos saberes das famílias, de como é importante o respeito às experiências das pessoas, o que traz uma riqueza de criatividade”, afirma.  

Além de construir ideias e práticas inovadoras, Freire também experimentou na linguagem, publicando obras para diversos públicos, em vários formatos. “Paulo Freire é um grande perguntador, um problematizador. Ele queria sempre fazer diferente. No final da vida, ele queria se dedicar aos jovens, então fez Pedagogia da Autonomia para ser um livrinho de bolso e muito barato, para que todo jovem pudesse lê-lo”, conta Padilha.

“Paulo Freire é um grande perguntador, um problematizador. Ele queria sempre fazer diferente”

Assim como Paulo Freire demonstra o quanto as pessoas sem instrução formal são detentoras de conhecimentos, é possível fazer um paralelo com a criatividade. Muitas pessoas, mesmo sem serem artistas ou inovadores reconhecidos formalmente, são absolutamente criativas no seu cotidiano. “O sofrimento do nosso povo não é pouco. Tem gente que lida na vida com tantas situações limites, que só mesmo com muita criatividade para enfrentar”, diz Padilha. 

“Situação limite” e “inédito viável” são dois conceitos freirianos profundamente ligados à criatividade, mas ambos demandam uma consciência crítica. O primeiro diz respeito a circunstâncias que despertam nas pessoas a necessidade e a vontade de promover mudanças. A partir da tomada de consciência sobre o que é preciso ser transformado, passa-se à ação. Já o inédito viável é uma resposta à situação limite, uma nova ação política posta em prática.

“Nós, professores, fomos muito silenciados e vamos nos acostumando a não ser criativos”

Na rotina docente, promover a criatividade exige um esforço consciente. “Nós, professores, fomos muito silenciados e vamos nos acostumando a não ser criativos. É difícil ser criativo sem poder comprar um livro, ir ao teatro, ao cinema. Acabamos até nos tornando os silenciadores dos estudantes”, reconhece Padilha. Portanto, é preciso de uma dose de indignação para não se conformar com as coisas como ela são. “Exige muita disposição para sair do lugar-comum. A criatividade também vem da raiva, da justa ira, que nos faz superar nossos silenciamentos e as violências que vivemos”.

Segundo o diretor pedagógico, a criatividade é absolutamente indissociável das ideias e ações de Paulo Freire. “Ele dizia que somos seres incompletos, inacabados, inconclusos. A gente busca se completar no outro, na natureza, no mundo”. Por isso estamos sempre aprendendo, constantemente criando. 

Universal, com limites

Se até a década de 1960 a criatividade era relacionada a um grande talento para as artes, um dom especial de algumas pessoas iluminadas, a partir das ideias do psicólogo americano John Paul Gilford, passou a prevalecer a concepção de que a criatividade é constituinte da própria natureza humana, segundo explica Agostinho da Silva Rosas, docente da Universidade de Pernambuco e conselheiro consultivo do Centro Paulo Freire-Estudos e Pesquisas

Ainda assim, há uma grande responsabilidade dos educadores no desenvolvimento dessa capacidade. “A criatividade é inerente: todos somos sujeitos da ação criativa. Porém, nossa maneira de agir se aprende, conforme as condições favoráveis ou desfavoráveis. A ousadia é um carro-chefe para a ação criativa. Não ter medo de ser ousado é algo aprendido”, afirma Rosas.

Mesmo sendo desejável, a ousadia criativa não pode ser irrestrita. Respeitando a lógica de Paulo Freire, ela deveria ser limitada por valores como a dignidade humana. “Ninguém pode negar que a bomba atômica foi criada por meio de uma extraordinária capacidade de criatividade. Mas essa ação criativa não nos interessa, porque não diz nada para um processo de libertação; é sim uma manobra para matança, para desumanizar”, diz o professor.

“A ação criativa pressupõe um ato político”

E não faltam exemplos atuais: “Há uma ação criativa na produção de agrotóxicos que levam à morte e ao adoecimento. Mas essa não tem a ver com os valores de uma ação criativa emancipadora, democrática, solidária, a favor da dignidade humana”, cita Rosas. É preciso não ter medo de ser diferente e criar, contudo preservando valores éticos. 

Criatividade não é sinônimo de improviso. Ao contrário, ela exige rigor e radicalidade, alerta o professor. “Radicalidade não é extremismo; é um exercício de ir com profundidade à raiz das coisas, à essência. Ser radical é uma exigência à emancipação. Rigor não é obediência; é o compromisso e a responsabilidade com o que faço, o rigor metódico. Não há possibilidade de pensarmos a ação criativa com o viés freiriano e todos os que pensam uma educação libertadora, desprovida de rigor e radicalidade, porque a ação criativa pressupõe um ato político”, afirma o docente. 

Autora: Luciana Alvarez

* Conteúdo produzido e editado pelo Porvir

Aquarela na escola: a mancha que vira arte

A maioria das crianças adora desenhar e pintar. A atividade ajuda a promover a coordenação motora, a concentração, a criatividade e a sensibilidade – e, sobretudo, é uma forma de se expressar. Na escola, cabe ao professor estimular que todos desenhem muito. Além disso, é importante aumentar o repertório dos estudantes, oferecendo materiais variados. Pintar com aquarela na escola pode trazer experiências enriquecedoras, em qualquer etapa da educação. 

O artista plástico José Mianutti, que trabalha com aquarela há mais de 25 anos, desenvolveu um curso para crianças e garante: desde a educação infantil elas são capazes de aprender técnicas para lidar bem com o material. “Primeiro, é preciso treinar o degradê, algumas manchas com diferentes graus de saturação e diluição. Depois, começar pelas paisagem sem muitos detalhes, para eles praticarem”, recomenda. O grau de dificuldade deve ir crescendo de acordo com a idade e com as habilidades que os alunos vão adquirindo.

A aquarela tem uma técnica bastante única, explica José. “Uma das principais características dela é a mancha, e o desafio é como controlar a mancha. Temos que aprender a controlar o grau de umidade, de acordo com o que efeito que se quer transmitir”, diz. Mas o controle nunca será absoluto. Segundo o artista plástico, a aquarela ensina a lidar com o inesperado, a olhar para um suposto defeito como um efeito. 

O material de pintura para iniciantes costuma ter preço acessível, não ocupa muito espaço, nem tem cheiro forte, características que facilitam o uso escolar. Quando um professor se propõe a trabalhar com aquarela em classe, pode também aproveitar para contar sobre a origem desse tipo de pintura. 

“A aquarela era muito utilizada antigamente para se fazer rascunhos, quando ainda não havia tintas comercializadas em tubos e os pintores iam trabalhar ao ar livre. Eles usavam as aquarelas porque era mais fácil de transportar. Iam ao local que queriam retratar, faziam um esboço para depois, no atelier, fazer a pintura definitiva”, conta José. 

O visual da aquarela acabou conquistando muitos artistas, que escolheram usá-las para fazer obras finais. “O professor pode trazer exemplos de artistas antigos e contemporâneos e mostrar como a técnica oferece tantas possibilidades”, afirma.

 “O professor pode trazer exemplos de artistas antigos e contemporâneos e mostrar como a técnica oferece tantas possibilidades”

Projeto interdisciplinar

O desenho e a pintura podem se manter na rotina escolar até o final do ensino médio. E têm ainda o potencial de integrar conhecimentos de várias disciplinas. Professora de artes no Colégio Estadual José Leite Lopes, o Nave Rio, Maiara Zacarone desenvolveu um projeto de aquarela na escola em conjunto com as professoras de biologia e química. Nele, os alunos produziram os pigmentos que, depois, usaram para fazer suas obras. 

“A professora de biologia estava trabalhando com botânica, já tinha extraído tinta de diferentes partes de plantas. Depois a professora de química veio de se juntar, tratou com os alunos dos elementos para dar liga na tinta, como álcool, água e cola”, conta Maiara. 

O lado artístico acabou sendo a culminância do projeto, batizado de PigmentArt. “A gente teve uma conversa sobre a qualidade das tintas, sobre as técnicas de aquarela, os cuidados para não deixar o papel muito encharcado. Eles fizeram marcação a lápis antes e mostrei que não era bom começar muito perto da linha, porque a tinta vai se espalhando”, diz a professora. Nas aulas de artes, também estudaram sobre a britânica Margaret Mee (1909-1988), artista botânica que se especializou em plantas da Amazônia brasileira.

Todas as obras dos alunos foram expostas no colégio. As notas foram pelo engajamento e participação; cada professora fez sua própria avaliação, de acordo com os objetivos da sua disciplina.

Maiara ressalta que, mesmo no ensino médio, com a pressão por notas e vestibulares, pinturas e outras atividades das aulas de arte, como a aquarela na escola, conseguem engajar os estudantes. 

“Eles gostam da minha aula, porque eu não foco na parte teórica, vou mais para a prática. Claro que tem um momento de conversa, de entender um contexto histórico, uma apresentação, mas dou sempre atividades mão na massa, de criação. Eles já têm uma sobrecarga de tarefas nas outras matérias, mas também aprendem com as artes, de forma mais leve”, diz. 

Autora: Luciana Alvarez

*Conteúdo produzido e editado pelo Porvir

Metodologias ativas são aliadas para promover uma educação inclusiva

Foram muitos os desafios da educação durante o período de ensino remoto, e essas dificuldades se agravam quando falamos dos estudantes com deficiência. Uma pesquisa feita pelo Datafolha e pelo Plano CDE mostra que 31% desses alunos não conseguiram acompanhar as atividades a distância e 17% perderam o interesse pelos estudos. Diante desse cenário, para reduzir barreiras e promover uma educação inclusiva, as metodologias ativas oferecem estratégias interessantes para os professores tornarem o aprendizado significativo para todos os estudantes. 

“Uma educação inovadora faz uso das metodologias ativas como ferramenta que reduz as barreiras metodológicas e tornam a prática pedagógica mais flexível e acessível para todos”, pontua a psicóloga Regiane Silva, responsável técnica do “Guia do Educador Inclusivo” e profissional com 37 anos de experiência em inclusão de pessoas com deficiência intelectual e de desenvolvimento. 

A especialista explica que as metodologias ativas respeitam a diversidade de estilos de aprendizagem, de formas de expressão e de representação dos estudantes. Aliadas aos recursos de acessibilidade, elas permitem que estudantes com deficiência se envolvam com o conteúdo de forma mais funcional e significativa. 

“Uma educação inovadora faz uso das metodologias ativas como ferramenta que reduz as barreiras metodológicas e tornam a prática pedagógica mais flexível e acessível para todos”

Luiz Conceição, coordenador de formação do Instituto Rodrigo Mendes, referência quando o assunto é a educação de pessoas com deficiência, concorda que o uso de metodologias ativas favorece uma aprendizagem mais significativa se comparada com o ensino tradicional. 

“Por mais brilhante que seja uma palestra, por melhor que seja a intenção, isso não necessariamente muda a prática”, exemplifica Luiz comparando a situação da sala de aula com as palestras que dá a professores sobre educação inclusiva. “Tenho que ver esse sentido, tenho que entender, tenho que fazer algum tipo de ligação com a minha própria produção, com o meu próprio fazer.”

Possibilidades para alunos com deficiência

Ana Beatriz Ramalho e Raquel Vendramin do Colégio Marista Paranaense, em Curitiba (PR), são professoras do Bernardo, um aluno com transtorno do espectro autista. A primeira é responsável por dar as aulas no espaço maker da escola, já a segunda é a professora regente responsável pelas atividades de aprendizagem criativa com as turmas do 2º ano. 

Raquel conta que, no início, Bernardo era muito tímido. Porém, quando descobriu que nas atividades no espaço maker ele poderia usar seu potencial criativo, o aluno foi se entusiasmando com as aulas. “Toda vez que nós íamos para a aula da Bia, ele dizia: ‘Hoje é dia de criação’”, relembra Raquel. 

O trabalho com a criatividade também impactou a forma como o aluno encarava conteúdos fora do espaço maker. Raquel conta que um dia, trabalhando Língua Portuguesa por meio de um texto instrucional, que tratava sobre como montar um boneco de rolo de papel higiênico, ela percebeu que Bernardo tinha se fixado no material. 

“Como professora, como educadora, eu não estava percebendo o porquê daquele encantamento”, explica Raquel. No dia seguinte, porém, o aluno apareceu com um boneco construído, ainda que essa não fosse uma atividade proposta pela professora. 

“Em um texto trabalhado de forma tradicional, Bernardo não teria percebido a possibilidade de criar, de mexer, de construir”, conta Raquel. “Ele foi com esse texto na memória para casa, usou a criatividade para fazer, montar e trazer para os colegas e para todos verem.”

Como promover a inclusão de forma eficaz?

É fácil cair nas armadilhas da exclusão. Por isso, Regiane reforça que o professor precisa estar atento e identificar barreiras que podem impedir o aluno com deficiência de participar de forma plena da proposta pedagógica ofertada a todos. O primeiro passo é ter a escuta ativa para conhecer e se conectar com o estudante.

“Independente da condição de participação do estudante com deficiência, conhecê-lo além de sua deficiência vai fazer toda a diferença, pois o foco está nas suas competências, e não nas incapacidades”

“Independente da condição de participação do estudante com deficiência, conhecê-lo além de sua deficiência vai fazer toda a diferença, pois o foco está nas suas competências, e não nas incapacidades”, pontua a psicóloga. 

Luiz adiciona ainda que esse processo de escuta é importante para que a proposta pedagógica seja construída conforme as necessidades e potencialidades desse aluno. “Do nosso ponto de vista, além de serem ativas, elas [as metodologias] têm que ser dialógicas, ou seja, nós temos que escutar essas crianças e, dentro desse diálogo que se estabelece, aí sim ir criando”, explica. 

Os benefícios das metodologias ativas aparecem também na hora da avaliação, ao considerar a diversidade de competências e aprendizados desenvolvidos. “As metodologias ativas ajudam muito a gente, porque você não tem só um método de prova, você tem múltiplos meios de fazer a avaliação dessa criança”, conclui Luiz. 

Autora: Aline Naomi

* Conteúdo produzido e editado pelo Porvir

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